terça, 09 junho 2015 18:35

Cicatrização da mucosa

Um alvo terapêutico na doença inflamatória do intestino

A "Cicatrização da Mucosa como Alvo Terapêutico" foi tema de debate no decorrer do Curso Pós-Graduado, que decorreu hoje no âmbito da Semana Digestiva 2015.

A News Farma falou com o Dr. Peter Lakatos, que, neste debate, assumiu a posição “a favor” do poder da cicatrização da mucosa enquanto alvo terapêutico. Leia na íntegra as considerações do Dr. Peter Lakatos sobre o tema:

O curso da doença inflamatória do intestino é heterogéneo e varia ao longo do tempo. Portanto, a procura de fatores preditivos tem sido alvo de investigação crescente. “A cicatrização da mucosa tem, por isso, surgido como um importante fator pois, de acordo com as evidências, há uma associação entre este endpoint os e os outcomes da doença”, explicou o Dr. Peter Lakatos.

O problema, referiu o gastrenterologista da Semmelweis University, em Budapeste, “é que algumas questões continuam sem ter uma resposta, nomeadamente a definição de cicatrização parcial ou completa, assim como o melhor método de avaliação usando o endoscópio ou outras técnicas imagiológicas, algumas das quais são relativamente invasivas e dispendiosas”.

Não há, segundo o especialista, uma definição universal para a cicatrização da mucosa nem no contexto da colite ulcerosa nem no da doença de Crohn. “Os diferentes estudos realizados têm usado diferentes definições, assim como diferentes sistemas de pontuação (scores). Essa incerteza “é mais significativa na doença de Crohn, para a qual existem vários scores endoscópicos”. Existe, contudo algum consenso relativamente aos parâmetros que devem ser valorizados, tais como a ulceração profunda ou superficial e a estenose ulcerosa ou não-ulcerosa, que são avaliados em função da área afetada, no sentido de se obter um índice de gravidade.

Entre a doença de Crohn e a colite ulcerosa existem algumas diferenças histológicas, sendo que, na primeira, há uma penetração mais profunda das lesões, enquanto na colite ulcerosa é, primariamente afetada a camada da mucosa. “Apesar desta diferença, a avaliação do colon e do íleo terminal é o fator de diagnóstico essencial para ambas as condições clínicas. A endoscopia é também utilizada para determinar a eficácia das intervenções terapêuticas”. De qualquer forma, os dois tipos de doença inflamatória do intestino são progressivos e recidivantes. As consequências das recaídas são cumulativas e podem gerar lesões intestinais irreversíveis, mesmo quando o doente tem longos períodos de remissão.

Tradicionalmente, “a melhoria sintomática era o objetivo terapêutico inicial, sendo que era dada pouca atenção às lesões gastrintestinais cumulativas. No entanto, mais recentemente, a cicatrização da mucosa tem sido o principal foco de atenção, desde que se descobriu que a sua relação com a melhoria dos outcomes a curto e longo prazo”, justificou o Dr. Peter Lakatos.

A cicatrização da mucosa enquanto endpoint de ensaios clínicos

Na doença de Crohn a cicatrização da mucosa tem vindo a ganhar importância enquanto endpoint de ensaios clínicos. Por outro lado, uma vez que não está ainda bem estabelecida a definição de cicatrização da mucosa, os resultados de cada estudo dependem sempre dos critérios e scores utilizados. Na colite ulcerosa, a avaliação da cicatrização da mucosa durante o tratamento é relevante para a prática clínica, pois esta “é considerada como o gold standard para a resposta completa.

“A gravidade das lesões endoscópicas também possui valor prognóstico, já que a presença de ulcerações profundas determina uma menor probabilidade de resposta aos medicamentos e um aumento da probabilidade de cirurgia”, explicou o especialista. Os doentes com lesões endoscópicas mais acentuadas também apresentam um risco acrescido de progressão da extensão da doença ao longo do tempo.